O ar fresco da manha penetrava pelas janelas. O mês de Dezembro fazia-se sentir com todo o seu esplendor e a neve tornara a cidade branca e gélida.
Ryan estava pronto para sair de casa, como era habito àquela hora. Com a mala já posta encaminhou-se até a sala. Pegou nas chaves que descansavam na mesa da sala, junto aos seus comprimidos, desde a noite passada.
Desceu as escadas do prédio rapidamente e enfrentou o frio da cidade. O caminho da sua casa até ao metro era curto e Ryan percorreu-o num ápice. Chegado ao metro ele sentou-se no banco mais próximo da saída pretendida e esperou.
Esperou.
Esperou.
Até que a viu.
Do outro lado da estação tinha acabado de entrar a rapariga mais bonita que Ryan alguma vez tinha visto na sua vida. Os seus olhos azuis percorreram a estação e durante breves segundos cruzaram-se com os dele. O seu cabelo louro esvoaçou ao sabor da ligeira brisa que percorria a estação. Era impossivel não reparar nela, não ficar inebriado pela sua beleza. Ryan foi só mais uma vitima.
Um barulho surgiu ao longe. O metro estava a chegar. Ryan acordou do seu transe induzido pela rapariga loura. Antes de entrar no metro olhou para o relógio.
Eram nove horas da manha.
O dia passou lentamente. O trabalho de Ryan como estagiário numa pequena firma de advogados nunca era particularmente interessante mas naquele dia frio de Dezembro todas as tarefas que ele executava pareciam ainda mais aborrecidas do que o habitual. Ryan passou o dia a tirar fotocópias, a entregar requerimentos, a pesquisar casos, a servir cafés. E a pensar nela. Sempre nela.
A rapariga loura do metro não saia da cabeça do estagiário. O seu aspecto, as seus movimentos e o seu longo vestido vermelho eram constantes na cabeça de Ryan. Estes pensamentos distraiam o do seu trabalho mas ele não conseguia parar. Aquela rapariga tinha-o marcado de uma maneira rápida e profunda.
-Isto hoje não esta a dar. - o chefe dos advogados olhava para o estagiário de uma maneira hostil e nada satisfeita – Não estas a fazer aqui nada, vai para casa.
Ryan olhou para o chefe. O homem de meia idade continuava a olhar para ele com um ar furibundo. A careca do homem reluzia com a exposição ás luzes do escritório. O estagiário não quis discutir. Não valia a pena. Alem disso o chefe tinha razão. Não valia a pena.
A partir do primeiro encontro, do primeiro momento, os dias de Ryan sucederam-se todos da mesma maneira. Todos os dias ele estava no metro às nove horas. Todos os dias ele vi-a a do outro lado da estação e todos os dias, por breves momentos, os seus olhares encontravam-se e Ryan sentia (mesmo que durante apenas um segundo) que fazia parte do mundo da rapariga loura. Sentia que ele e ela podiam ser um só. E durante esse segundo ela reconhecia-o, os seus universos cruzavam-se e ela tornava-se momentaneamente acessível.
Durante o resto do dia aquele momento não lhe saia da cabeça. A cada dia que passava, a cada instante, a sua concentração diminuía e a sua mente vagueava pelo azul dos seus olhos.
O seu corpo movia-se ,inerte, pelo tempo e espaço sem uma reacção aparente. No trabalho fazia o mínimo, falava o mínimo e pensava o mínimo. Só pensava nela.
Em casa fazia ainda menos. Passava tardes e noites a olhar para as paredes. A conjurar cenários na sua cabeça. Cenários onde estava com ela, onde lhe podia tocar, beijar e onde ela o reconhecia como parte integrante do seu ser.
Os dias passavam. Iguais. Imutáveis.
Até que um dia tudo terminou.
Ryan estava no metro, nove horas como sempre. Mas desta vez foi diferente. Quando os olhos dele percorreram a outra extremidade do metro, à procura da rapariga loura, não encontraram nada. Um vazio preenchia a estação.
O momento em que Ryan se apercebeu que ela não estava lá foi doloroso. Ele sentiu o seu coração parar por momentos. Sem saber como o estagiário apercebeu-se que ela nunca mais ia voltar, que nunca mais a ia ver. Percebeu-se que nunca ia voltar a encontrar os seus olhos azuis, os seus cabelos dourados.Uma lágrima percorreu-lhe o rosto. Um barulho ouviu-se ao longe. O metro estava a chegar.
Fechou os olhos,
Respirou fundo,
E deu um passo em frente.
